terça-feira, junho 27, 2006

Desabafo do amanhecer


Debruçado em meus versos,
Tenho apenas meus pensamentos.
E a impossibilidade de apresentá-los,
De uma melhor forma.
Mudo-me de lugar variadas vezes.
E repito.
E novamente de novo... e mais uma vez.
Costuro as recordações,
Nas promessas de um futuro fantástico.
Irrompendo as fronteiras possíveis,
Encontradas no amanhecer ainda não amanhecido.
Nos acordes de minha vida,
Faço poesias incompletas.
Tentando completar o sentimento,
Incompleto à minha versão.
Os habitantes dos subúrbios,
Acostumados ao necessário,
De cabeça baixa e corpo altivo,
Seguem o caminho destinado.
Enquanto no possível amanhecer,
De tantos outros amanhecer,
Eu sigo meu caminho.
De crenças diversas,
Postuladas no centro do ser.
Aqueles anos vividos,
Escorrem pelas sarjetas imundas.
De cidades imundas.
De pessoas imundas.
O orgulho do João,
Sucumbiu aos suspiros longos e frios.
Da mulher de vestido marrom e lenço na cabeça.
Tendo a tira-colo,
O peso eterno do mundo.
De falsa compaixão.
Consolando e sendo consolado,
Tudo segue firme!
Adormeço para não mais acordar.
(pelo menos agora,
neste momento,
é a minha vontade)
E só acordar,
De maneira magnífica,
Quando o mundo virar mundo.
Então, que vire mundo!
Mas continuo acordado,
Tardes e mais tardes,
Luas e mais luas,
Agora ainda é dia?
A noite escorre diante de meus olhos.
Exigindo cada vez mais de mim,
E eu acovardo-me...
Escondo-me atrás de grandes fortalezas.
Tenho medo.
Muito medo.
Medo da claridade que poderei estar,
Com meus poemas sob o braço.
Expostos a quem quiser...
De maneira rápida e marcha contínua.
Elaborando circunstancias próprias,
De sorrisos sorridentes.
De sorrisos amarelos.
De preocupantes sorrisos.
Únicos e precários,
Galopeiam na escuridão do subconsciente.
Mas tudo se transformará.
O ridículo será célebre.
E o célebre, tradicional.
Montando banca em repartições arcaicas,
De totalidade infecunda,
E intelecto apodrecido.
Atrás da vidraça blindada,
Lambuzada de elogios,
Não mais continuará a voz trancafiada,
Daquele poema sem voz,
Por não ter sido ouvido.
Enquanto isso não ocorre,
Antes que novamente eu mude de lugar,
Os soldados se espalham,
Próximos as sarjetas imundas.
Em cidades imundas.
De pessoas imundas.
Tentando combater a indiferença,
E proclamar o cântico verdadeiro.
Estes soldados bárbaros,
Símbolo de um passado repressor,
Comandam a liberdade,
Do poema,
Da consciência,
Do homem.
Antes que o dia amanheça.



(Rômulo Piloni).

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