domingo, setembro 24, 2006

O despertar acordado


Nas reconhecidas memórias,
Sobre o amarelo tapete no banheiro,
Sigo os pensamentos fluidos.
Quase, sempre, sepulcral.
No brinde da lua,
E no belo adeus ao sol.
Naquele plano horizonte,
É de todo cor.
Adiante, a noite se arrasta.
A porta, querem que eu feche.
A meia luz,
Na sombra do cruzeiro, descanso,
Sob brisa olfativa.
No épico coro passam os pássaros.
É no começo da dúvida,
O fim da certeza.
Meu começo acabou no fim,
E o fim nem começou.
De inúmeros diminutivos,
Nos pêndulos de minha vida,
Corro riscos.
É preciso um ponto de apoio,
Na terra vermelha suave,
Somada ao prodigioso pensamento.
Aos poucos descubro o tudo.
E tudo que achava se torna em nada.
A gota pingante inválida,
Na magia de cada dia.
Desperto-me dos sonhos malucos e reconfortantes,
Com o soar da campainha.


(Rômulo Piloni).

Insustentável atividade amorosa


Uma provisória carta de amor,
Escrita com tinta pau-brasil,
Impregnada de valores abstratos,
Sobre a nebulosa poeira do pó das asas.
Peliculosa e paciente no futuro.
Refletora e idiota no presente.
Intelectual e artística no passado.
Coexistindo de uma raiz profunda,
Coincidente na origem e no original.
Tentado se tornar o primeiro,
Na ingênua aspiração da pureza.
Acima da tolerância dos tolerantes.
Põe-se a alma a palpitar,
Com imagens febris e serviços urbanos ligeiros.
Mesmo sendo muito, é pouco.
Inocência de Inocência.
Byron e Garret,
Mostram-se transfigurados,
No reflexo da garrafa tinto.
Além das profundas cores e dos milhares de filhos de Gandhi.
Neste lerdo escoar de significados,
Perante o fluxo e refluxo de palavras,
Contrastante com o ser,
Contrastante com estar.
Meias são atributos femininos,
Portanto, morte aos generais.
Estes guindastes vastos, grandes e maduros.
Sem danças venturosas, sem o balançar de redes.
Desgraçada não é a folha da parreira,
Nem, também, o pilar da ponte.
É desgraçado o homem sentimental,
Neste mundo macho-moderno.


(Rômulo Piloni).